As grandes varejistas têm planos de acelerar a inauguração de lojas a partir de 2010 e recuperar o terreno perdido em 2009, quando a crise econômica mundial obrigou os principais executivos das companhias a elaborarem orçamentos mais espartanos. Além do comércio de lojas físicas, espera-se que a disputa entre os gigantes também se acirre no comércio eletrônico, com uma atuação mais agressiva do grupo Pão de Açúcar (Extra, Ponto Frio e Casas Bahia), Walmart e Carrefour, que deve estrear na internet no início de 2010.
Nesta segunda-feira, o presidente da multinacional americana Walmart no Brasil, Hector Nuñez, anunciará os planos de investimento no Brasil em 2010 em um encontro com o ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge. O Walmart colocou o Brasil entre os mercado prioritários no mundo e espera-se que o grupo mantenha um forte ritmo de expansão.
No ano passado, em uma reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Nuñez anunciou um investimento recorde em 2009, de R$ 1,6 bilhão, com a inauguração de 90 lojas. A promessa, segundo garantiu o executivo ao Valor em outubro que deve ser cumprida.
Após um ano de poucas inaugurações, a Lojas Americanas anunciou um programa de R$ 1 bilhão para abertura de 400 lojas entre 2010 e 2013. Já o Grupo Pão de Açúcar partiu para um estratégia agressiva de aquisições. O grupo comprou as duas maiores varejistas de eletroeletrônicos do país, a Casas Bahia e o Ponto Frio.
Se em 2009 o grande destaque do varejo foram os bens não duráveis, como alimentos e medicamentos e perfumaria, alguns economistas avaliam que, em 2010, será a vez do bens duráveis, como eletroeletrônicos diante da expansão na oferta de crédito.
Segundo relatório dos economistas Antonio Lanzana e Luiz Martins Lopes, publicado do boletim da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisa), a retomada do crescimento econômico em 2010 torna o cenário mais positivo para os bens duráveis, cuja demanda deve aumentar com o crescimento da renda e na oferta de crédito.
Os bens de consumo não duráveis sentiram menos o efeito da crise [em 2009], mas, na recuperação, também mostram desempenho mais fraco. Segundo os economistas, os bens duráveis possuem uma alta elasticidade-renda, enquanto o segmento de não duráveis, como alimentos, caracteriza-se por uma baixa elasticidade-renda.
Essa tendência já começou a se evidenciar em outubro, quando o varejo de eletrodomésticos e móveis registrou um aumento de 3,5% sobre igual período de 2008, depois de apresentar taxas próximas a zero em agosto e setembro.
No entanto, os executivos de empresas ligadas ao setor de consumo devem manter, em 2010, um olho no PIB e outro na Selic (juros básicos). Apesar da euforia com o crescimento econômico - alguns já preveem uma expansão de 6,5% - os economistas também enxergam uma pressão de alta nas taxas de juros, movimento que tende a afetar, em particular, a demanda por artigos duráveis, mais dependentes das vendas a prazo.
As altas [da Selic] devem ser provocadas pelo forte crescimento econômico [e não pela inflação], mas, mesmo assim, podem causar um impacto nos setores dependentes da economia doméstica, afirmam os economistas do J.P. Morgan em relatório sobre o desempenho da economia brasileira em 2010. O banco revisou a projeção de alta da Selic de 2 para 3 pontos percentuais no próximo ano.
Os juros já são altíssimos no Brasil. Seria uma pena [se eles subissem em 2010], afirma Marcos Carvalho, presidente da empresa de shopping centers Ancar Ivanhoe. A elevação dos juros tende a frear o crescimento nas vendas no varejo, apesar de o cenário ser ainda muito positivo para o ano que vem, avalia Carvalho.
Entre janeiro e outubro, o varejo expandiu-se 5,1% sobre igual período do ano passado. Apenas em outubro, o aumento foi de 8,4%, o que demonstra uma aceleração da demanda. Mas nem todos os setores saíram-se tão bem. O varejo de alimentos, medicamentos e perfumaria registrou fortes taxas de expansão, enquanto o setor de eletrodoméstico precisou ser socorrido pelo governo, que implementou medidas anticrise para reativar o consumo, como a redução do IPI para a linha branca.
Em outubro, as vendas do setor de hiper e supermercados cresceram 12,2%, ainda bem acima da média. A expectativa é que o setor [de supermercados] feche 2009 com o melhor desempenho de sua história, acima dos 7,6% ocorridos em 2006, afirmou Luiz Goes, sócio da firma de consultoria GS&MD, especializada em varejo.
Os números do IBGE atestam que o varejo brasileiro está em um novo patamar de crescimento, afirmou o Instituto de Desenvolvimento do Varejo (IDV), entidade que reúne a maiores redes do país em seu relatório. A entidade atribuiu o desempenho de outubro à retomada do crédito, recomposição do rendimentos e maior confiança do consumidor. Essa deve ser a tônica do mercado consumidor brasileiro para o final desse ano e início de 2010, prevê o IDV.
Fonte: Valor Econômico