Dinheiro, para quê dinheiro? Um cartão já basta.
Quem liga para dinheiro? Hoje, as pessoas só querem bits. Não entopem a carteira, podem ser suspensos e protegidos com um simples telefonema. Basta que o consumidor tenha um cartão e o comerciante, o aparelhamento necessário para lhe extrair os bits. Conforme avança a formalização da economia e a bancarização, tanto dos trabalhadores quanto das empresas, em especial micro e pequenos empreendimentos, os fornecedores de serviços e tecnologia de automação comercial buscam expandir suas soluções para esses novos empresários e consumidores. Ao mesmo tempo — a exemplo do que ocorreu na telefonia — reconhecem a expectativa de esgotamento do mercado, o que implica ações para aumentar a rentabilidade proporcionada por cada um de seus clientes.
Interessada direta, por congregar comerciantes, a Associação Comercial de São Paulo (ACSP) acompanha a evolução e as mudanças, mas ainda não tem produtos prontos. Segundo o economista e superintendente da ACSP, Marcel Solimeo, o caminho parece apontar mais para o uso de chips e celulares. Essa evolução é positiva para o mercado, diz ele.
É verdade. Os consumidores ganham facilidades de pagamento, o que facilita as vendas. Contudo, a conformidade às regras fiscais e a modernização da retaguarda ocupam espaço relevante na agenda.
Veja aqui algumas das perspectivas para a automação este ano.
Maquininha compartilhada
Em uma iniciativa inédita no mundo, a Cielo (ex-Visanet) está na fase final de testes do MultiEC, conhecido como o POS Comunitário. Com o novo produto, vários comerciantes podem compartilhar o mesmo terminal e a tarifa, de R$ 84 mensais, é rateada. Embora o equipamento seja de uso comum, os pagamentos e as faturas são separados por CNPJ, da mesma forma que ocorre com uma máquina exclusiva. O foco são os estabelecimentos e profissionais liberais que já trabalham de forma cooperada – médicos que empregam a mesma recepcionista para atender a vários consultórios; feirantes; pequenas lojas em galerias comerciais; e centros de serviços, como cabeleireiro e manicures, exemplifica Eduardo Chedid, vice-presidente de soluções em negócios da Cielo.
O executivo menciona que em um dos testes-piloto, na comunidade de artesãos do Circuito Turístico Caminhos do Centro Oeste Paulista, em Bauru (SP), houve um aumento de 60% nas vendas. Muita gente que nos visitava levava apenas dinheiro vivo, o que limitava a compra dos artesanatos. Agora que vendemos com o cartão, o nosso ticket médio aumentou, conta Erika Charlois de Jesus, uma das coordenadoras da comunidade.
No Núcleo de Ortopedia e Traumatologia de Belo Horizonte, 14 médicos dividem o terminal na cobrança de consultas, sessões de radiologia, fisioterapia, RPG, ressonância etc. No setor de turismo, 21 agências em Bonito (MS) também se utilizam do POS Comunitário.
O custo do POS é rateado de forma proporcional ao número do co-usuários e pode chegar a R$ 3,50 mensais caso se reúna o número máximo de participantes, limitados a 30 CNPJs. Chedid esclarece que a solução está disponível em todas as modalidades de captura da transação, por linha discada ou GPRS. A opção de mobilidade, inclusive, é mais um atrativo para uso em feiras ou outros espaços abertos.
O vice-presidente da Cielo enfatiza que não é necessária nenhuma alteração no cartão dos consumidores. No entanto, avalia que a adoção será paulatina. Chegamos a segmentos em que o uso do cartão não é comum. Há uma curva de aprendizagem até que as pessoas conheçam essa alternativa e se habituem à conveniência no pagamento do cabeleireiro ou do peixe na feira, diz.
Micropagamentos com cartão sem contato
Transporte público, estádios, lojas de conveniência, lanchonetes, estacionamento e, nas próximas semanas, um quiosque de aluguel de bicicletas são alguns dos 300 estabelecimentos que já aceitam pagamentos com cartões sem contato da bandeira Mastercard. Emerson Duran, diretor de meios de captura da Redecard, informa que 2010 deve fechar com 3 mil leitores instalados, inicialmente no Rio de Janeiro.
Semelhante aos cartões de transporte ou crachás de controle de acesso, basta aproximar o cartão do sensor para fazer o pagamento. Duran argumenta que a facilidade de pagar sem entregar o cartão a um funcionário, assinar ou digitar senha, evita que um cliente desista de uma pequena compra por causa da fila, ou por falta de troco. Normalmente são definidos limites baixos para a transação e o terminal opera offline, o que evita a espera pela discagem e autorização. Além de acrescentar conveniência para os estabelecimentos que já aceitam o cartão, vamos atender a novos segmentos, afirma.
A disseminação do uso do cartão sem contato, todavia, exige que os bancos emissores passem a incluir o recurso no plástico entregue a seus clientes. Embora tenha concluído a fase piloto no final do ano passado, a Redecard continuará focada no mercado do Rio de Janeiro, antes de uma expansão nacional da oferta. No Rio, o uso de cartão está acima da média. Vamos estudar para entender melhor itens como ticket médio, aceitação do público e resultados em cada segmento. Como já há cerca de 60 milhões de PayPass emitidos no mundo, com validade internacional, é interessante também disponibilizar o serviço em uma cidade turística, explica.
Um POS contido em um único chip
Para acelerar o uso do celular como terminal de pagamento, a Redecard já fecha acordos com as operadoras para embarcar a aplicação de transações com cartão de crédito em um chip. Com a aplicação em Java (baixada para o celular), já temos mais de 10 mil
icroestabelecimentos (como táxis, prestadores de serviços domésticos, ou vendedores ambulantes) conveniados e um crescimento de 20% mês a mês. A opção de enviar um chip com o aplicativo é uma facilidade que aumenta a aceitação entre os varejistas, diz Duran.
O custo de telecomunicações, segundo o diretor, fica entre R$ 0,05 e R$ 0,07 por transação. Ele esclarece que o cliente final só precisa informar o número de seu cartão, digitado no celular do vendedor ou prestador de serviço. Atingimos segmentos que precisam de mobilidade e
condições de oferecer mais conveniência a seus clientes, mas que não têm volume que justifique um custo mensal de R$ 100 (de aluguel do POS), afirma.
Você é o que você paga
Por questões de segurança, os estabelecimentos não podem armazenar informações financeiras sobre os clientes, o que os impede de usar os dados sobre pagamentos para conhecer e servir melhor o consumidor. Para preencher essa lacuna, a Cielo vai intensificar a oferta de serviços baseados na Plataforma de Promoções, em que o lojista define como as informações – gerenciadas de forma segura pela Cielo – podem alavancar vendas associadas, além de criar campanhas e premiações.
A linguagem do emissor é acumular pontos e resgatar depois. Já o varejista busca a fidelização na base do ´gastou, levou´. Se um frequentador de um restaurante a quilo paga 10 refeições com o cartão, ao passar o cartão na 11ª o PDV avisa que hoje é por conta da casa, exemplifica Chedid .
Na prática, o PDV funciona como terminal de um sistema de CRM (gestão de relacionamento com clientes), cujas informações ficam sob custódia da Cielo.
Outro serviço de valor agregado, nesse acaso para as empresas usuárias de cartões Visa, é o VCorp, um produto empresarial que simplifica o uso em atividades profissionais, conforme políticas definidas. Se o empregador se compromete a pagar o hotel e o funcionário gasta com vídeos pagos, uma despesa é lançada na fatura da empresa e outra na conta pessoal, exemplifica.
Segundo Chedid, a captura de dados estendida, em que se aproveitam dados complementares à transação financeira, é um dos caminhos para expandir a oferta à base de clientes já consolidada.
Fonte: Diário do Comércio